domingo, 19 de julho de 2009

68 Peças de museus municipais vão ser emprestadas ao Grupo Pestana

De acordo com a notícia publicada a 17 de Julho do Jornal de Notícias, a Câmara do Porto pretende emprestar por um ano, 68 peças de mobiliário e objectos decorativos, pertencentes ao espólio de museus municipais, em depósito, ao Grupo Pestana, para servirem os projectos de decoração de interiores dos espaços comuns e do restaurante da Pousada do Freixo.

William A. Bostick disse certa vez que "o grau de segurança de um museu corresponde, na realidade, ao ponto a que os directores de museus se preocupam com esse problema" [1].

Em Portugal, é notória a dedicação, interesse e esforço dos directores de museus, qualquer que seja a sua tutela, pela segurança e conservação preventiva das colecções a seu cargo. Isto implica lidar com todos os problemas inerentes a essa conservação, levantados pelos edifícios e espaços, condições físicas, técnicas e humanas específicas de cada museu, com orçamentos para a gestão museológica mínimos e, em muitos casos, insuficientes, dependendo-se em muito do sentido de responsabilidade e voluntariado de todo o pessoal do museu, para assegurar a sua salvaguarda.

Assiste-se agora ao absurdo de se recuar no tempo e voltar a ver os museus - hoje os museus municipais do Porto (amanhã quem se segue?) - por imperativos da sua tutela, a cederem, a título de empréstimo, peças antigas insubstituíveis para decorarem espaços particulares e públicos. Estaremos nós de volta ao século XIX, para assistir a uma redistribuição arbitrária de valiosos bens culturais, expropriados e arrolados no património português, por espaços públicos e privados, ou talvez mais precisamente ao século XX, durante a ditadura salazarista, quando os Museus Nacionais eram obrigados a fornecerem mobiliário, peças decorativas e utilitárias, não só para decoração dos gabinetes dos Ministérios do Estado e Embaixadas, mas para tudo prover para os banquetes de Estado e visitas oficiais de entidades estrangeiras?

Embora os termos do contrato entre a Câmara Municipal do Porto e o Grupo Pestana não sejam conhecidos, o problema subsiste: estamos a falar de expor e em que condições de exposição e conservação, em espaços de acesso fácil, 68 peças de mobiliário, faiança, espelhos - são 68 peças insubstituíveis dos museus municipais do Porto, o que representa um verdadeiro pesadelo em termos de segurança e de conservação, num espaço que se estende ao longo de 88 quartos, áreas comuns e restaurante (a Pousada é constituída por dois edifícios: o Palácio do Freixo e o alojamento a situar-se no edifício da antiga fábrica de Moagem Harmonia, desalojando-se daí o Museu da Ciência e Indústria).

Será possível que o Grupo Pestana nunca tenha ouvido falar nas excelentes reproduções de colecções dos museus portugueses? Não faria maior sentido colocar nas tais "áreas comuns e no restaurante da Pousada", essas e outras reproduções? Que condições podem estes espaços oferecer para garantir uma conservação ambiental e segurança adequadas a peças antigas, que exigem modos diversos de exposição, temperatura, humidade, luminosidade, etc.? O Grupo Pestana comprometeu-se em assegurar os trabalhos de restauro e conservação destas peças e com certeza que vão precisar, indo o pessoal de limpeza da Pousada receber formação em manutenção e conservação, de técnicos da Câmara. Resta saber como serão feitos esses trabalhos de restauro e conservação, visto que a formação técnica de um técnico em conservação não se faz num ano e cada peça é uma peça...

É caso para se dizer que, actualmente em Portugal, o grau de segurança das colecções de um museu municipal corresponde, na realidade, ao ponto a que os vereadores da Cultura em cada Câmara Municipal se preocupam com esse problema...

Esta é uma resposta (alargada) ao debate lançado pela Professora Doutora Alice Semedo, no seu excelente site da rede social para estudantes, profissionais e especialistas em museus, museologia.porto, que se encontra ainda em aberto.

O link para a notícia do JN "68 peças vão para a Pousada" encontra-se em "Notícias", na coluna direita deste blogue.

Nota: [1] Bostick, William, Guide pour la Sécurité des Biens Culturels, UNESCO, Paris, 1978.

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