terça-feira, 2 de março de 2010

Os Museus do Funchal

Foram amplamente divulgadas as notícias da catastrofe ocorrida na Madeira, devido a uma precipitação pluvial anormal (114 litros por metro quadrado, num curtíssimo espaço de tempo), que aumentou muitíssimo o caudal das três ribeiras que atravessam o Funchal, (afectando igualmente a Ribeira Brava, a Camacha e a Serra d'Água), transbordando estas com uma violência extrema, com perda de vidas, de bens e avultados prejuízos. Perante esta adversidade, os madeirenses revelaram a coragem, união e força de trabalho que os caracteriza, limpando em tempo recorde, a lama, rochas e toda a série de detritos que inundaram as zonas afectadas, recuperando a sua amada cidade. Muito há ainda para fazer pelas famílias enlutadas e desalojadas, mas é notável o muito que já se fez.


No entanto, pouco ou nada se disse sobre os museus do Funchal, alguns situados muito próximo das ribeiras - será sinal de que talvez não tenham sido grandemente afectados, o que é motivo de regozijo, embora pareça haver notícia de prejuízos incalculáveis ou possível perda patrimonial total em pelo menos um: o Museu-Biblioteca Mário Barbeito de Vasconcelos, de acordo com o Diário de Notícias (Funchal). Vamos então conhecer alguns desses museus, tomando como nosso guia o Guia dos Museus do Funchal (2008), do Dr. Francisco Clode de Sousa, a começar então, por este Museu-Biblioteca:


O Museu-Biblioteca Mário Barbeito de Vasconcelos foi fundado em 1989, pela empresa Vinhos Barbeito (Madeira), na cave da sua Loja, na Avenida Arriaga, e era constituído por três salas de exposição, que albergavam coleccções verdadeiramente preciosas, com exemplares únicos: a primeira sala apresentava Cristóvão Colombo e a expansão marítima, através de uma exposição de livros raros, gravuras e moedas; na segunda sala podiam-se ver edições raras sobre o Arquipélago da Madeira e manuscritos, estampas e desenhos originais sobre a história da indústria do Vinho da Madeira; e onde o visitante podia ainda descobrir uma colecção de libros sobre a flora madeirense; na terceira sala situava-se o arquivo documental sobre diversos aspectos culturais desta região. Por se situar na cave da Loja desta empresa de vinhos, com a inundação de água, lama e detritos que invadiu a Avenida Arriaga, provenientes do transbordar da Ribeira de São João, a cave parece ter sido completamente inundada. A saber o que poderá ser possível recuperar neste momento. Tarde se lamenta que este riquíssimo património cultural não tivesse sido melhor salvaguardado, em local mais adequado.


Na belíssima Avenida Arriaga existem também as Adegas de São Francisco, da Madeira Wine Company, visita obrigatória de todos os turistas da Madeira. As Adegas situam-se num conjunto de edifícios (dos séc. XVII e XVIII) que outrora faziam parte do extinto Convento de São Francisco, demolido no século XIX; com visitas guiadas, as suas salas de exposição narram o processo de fabrico do famoso vinho da Madeira, que pode ser degustado na sala de provas, e adquirido na loja e armazéns.


Entre a Avenida Arriaga e a Avenida do Mar, situa-se o Palácio de São Lourenço, fortificação portuguesa que data dos séculos XVI-XVII e que sucessivas reformas foram transformando em Palácio, para residência dos Governadores da Madeira. A divisão administrativa dos Poderes Civil e Militar em 1836, influenciou a divisão da ocupação de espaços neste edifício, passando a parte leste a pertencer ao Governador Militar - actualmente sob a tutela do Comando da Zona Militar da Madeira - e a parte oeste, com as principais dependências e salas nobres do palácio, a pertencer ao Governador Civil - de 1976 a 2004 ao Ministro da República para a Madeira e desde 2004, ao Representante da República na Região Autónoma da Madeira. O mobiliário, pinturas e peças de artes decorativas, portuguesas e europeias dos séculos XVII; XVIII e XIX, que decoram os espaços, vêm em grande parte, de Palácios Nacionais. Com percursos visitáveis, neste Palácio decorrem frequentemente eventos culturais. Pode ainda ser visitado um núcleo histórico-museológico na área militar, sobre a história da construção e sucessivas alterações desta fortaleza, e sobre a História Militar da Madeira, assim como os seus jardins.


O Photographia-Museu Vicentes, situado na Rua da Carreira, é o mais antigo estúdio de fotografia inteiramente preservado em Portugal, fundado em 1848 por Vicente Gomes da Silva (distinguido em 1852 como "Gravador de S. M. A Imperatriz do Brasil"), tornando-se património cultural da Região Autónoma da Madeira em 1978, com museu aberto ao público a partir de 1982. Este estúdio-museu, reúne importantíssimas colecções de fotografia que, ao longo de quatro gerações, foram registando os acontecimentos mais relevantes da História da Madeira, constituindo um espólio, notável, de mais de 500.000 negativos. Ao seu espólio foram reunidas, recentemente, as colecções dos Estúdios Fotográficos de João Francisco Camacho (também fotógrafo da Casa Real Portuguesa); de José Júlio Rodrigues; dos Perestrellos Fotógrafos; da Photo Figueiras; de Joaquim Augusto de Sousa; de João António Bianchi (Vale Paraíso); do Major Charles Courtney Shaw, de Gino Romoli, de Francisco Barreto; de João Soares; de Álvaro Nascimento Figueira; de Luís Bettencourt; de João Anacleto Rodrigues; de Russel Manners Gordon (Torre Bela); de Alexander Lamont Henderson, entre outros. Na objectiva das câmeras destes fotógrafos fixaram-se as imagens do quotidiano, das paisagens, do património cultural, de costumes e tradições, dos transportes, das festas e comemorações, de actos solenes públicos, de personalidades madeirenses e das visitas da Imperatriz Isabel da Áustria (a célebre Sissi); de suas Magestades o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia d'Orléans e Bragança; dos exploradores Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo; dos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral; e de muitas outras personalidades famosas portuguesas ou estrangeiras que um dia passaram por este lindíssimo arquipélago.


Outros museus situados relativamente próximo da ribeira de Santa Luzia, são o Museu Diocesano de Arte Sacra do Funchal, situado entre a Praça do Município e a Rua do Bispo, e o Museu A Cidade do Açúcar, na Praça Colombo.


O Museu Diocesano de Arte Sacra do Funchal foi fundado em 1940, tendo sido na altura instalado provisoriamente na Sala do Cabido da Sé, inaugurando as suas instalações definitivas no antigo Paço Episcopal da Diocese do Funchal, em 1955. As suas colecções, de grande valor, vão desde a uma colecção de pintura flamenga, dos séculos XV e XVI, única na europa, à pintura e escultura portuguesas (dos séculos XV a XVIII), ourivesaria (do século XVI ao final de XVIII), mobiliário e paramentária.


O Museu A Cidade do Açúcar tem as suas instalações num edifício onde originalmente se erguiam as casas manuelinas de João Esmeraldo, comerciante holandês de açúcar que um dia, hospedou o navegador Cristóvão Colombo. Este museu possui no seu acervo achados arqueológicos no Funchal, provenientes, especialmente da escavação realizada em 1989 nas antigas casas de João Esmeraldo, destruídas no século XIX. O museu pretende dar uma panorâmica da produção, tecnologia e comércio do açúcar, nos seus mais importantes ciclos (séculos XV-XVI e XIX), com a recuperação e musealização de um antigo engenho de Açúcar, apresentado exemplares de antigas formas de açúcar, pães de açúcar, medidas manuelinas, selos de chumbo, moedas, cerâmica diversa, entre outros objectos e obras de arte.


Próximos da Ribeira de João Gomes, situam-se o Museu da Electricidade - Casa da Luz, o Madeira Story Center, o Núcleo Museológico do Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira, e o Núcleo Museológico Mary Jane Wilson.


O Museu da Electricidade - Casa da Luz, museu da empresa EEM - Empresa de Electricidade da Madeira - situa-se entre a Rua da Casa da Luz e a Rua do Bridadeiro Oudinot, instalado no espaço da antiga Central Térmica do Funchal, inaugurada em 1897. O museu foi inaugurado em 1989, apresentando de forma atractiva a história da difusão e utilização da energia eléctrica na ilha da Madeira, desde os vários tipos de iluminação na cidade do Funchal aos vários tipos de maquinaria e formas de produção da energia eléctrica, térmica e hidráulica, assim como uma explicação dos postos de transformação, maquetas das centrais eléctricas e das redes eléctricas urbanas e rurais, terminando-se a visita na área dedicada às "Fontes de Energia", primárias e renováveis, e às novas tecnologias, com equipamentos interactivos e software multimédia, bola de plasma, realidade virtual, gaiola de Faraday e fibra óptica, que despertam grande curiosidade tanto de crianças como de adultos.


O Madeira Story Center situa-se na rua de D. Carlos I. Este Centro de Interpretação Histórica, pertencente a uma empresa privada (FUN - Centros Temáticos do Funchal, Lda.), em parceria com a Etergeste, foi inaugurado em 2005, incluindo mais tarde o Jardim Almirante Reis (em Santa Maria), junto ao teleférico do Funchal. Apresenta a História da Madeira, de uma forma lúdica e interactiva, com um espaço de exposição organizado em etapas cronológicas.


Na antiga Sede do Grémio dos Industriais de Bordado da Madeira, na Rua do Anadia, encontra-se instalado o Núcleo Museológico do Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira (IVBM). As suas colecções de bordados, vime, mobiliário e tapeçarias, apresentam-se em contexto de uso, evocando as memórias das salas de visitas, de jantar ou do quarto de dormir madeirenses, com mobiliário inglês dos séculos XVIII e XIX, com toalhas, lençóis, fronhas, colchas, cortinados e vestuário decorados com o rico bordado da Madeira. Igualmente há uma sala onde se podem ver os materiais, técnicas e processos de criação do bordado, que sofreu influências do Bordado Inglês, do Bordado Richelieu, e também Renascença, Veneziano e de Rendas, divulgadas na europa no século XIX. No final do percurso expositivo, o visitante tem a oportunidade de apreciar alguns bordados aplicados pela artista contemprânea madeirense, Lurdes de Castro.


O Núcleo Museológico Mary Jane Wilson encontra-se na Rua do Carmo e apresenta, ao longo de cinco salas de exposição, a vida e obra da Irmã Mary Jane Wilson (1840-1916), como enfermeira e fundadora da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias e de diversas instituições com propósitos educativos, religiosos ou beneméritos.


Por fim, no Monte, encontramos os Jardins da Quinta "Monte Palace" da Fundação Berardo, com uma vista privilegiada sobre o Funchal. Antiga quinta de recreio, foi transformada em hotel (o elegante Monte Palace Hotel), encerrado em 1943. Em 1987 esta propriedade foi adquirida por Joe Berardo e doada à sua Fundação, nascendo assim o Jardim Tropical Monte Palace, mantendo-se a casa para uso privado. Os jardinsestão ornamentados com aplicações decorativas - colecções de painéis de azulejo de meados do século XVI a XX e pedras de cantaria provenientes de demolições arquitectónicas, entre as quais se destaca um retábulo renascentista de uma oficina coimbrã do século XVI. Neste belo jardim tropical foi reservada uma área para um jardim de feição oriental, com elementos arquitectónicos e escultóricos. Num edifício construído para o efeito, encontram-se outras colecções de Joe Berardo - Escultura Contemporânea Africana (Zimbabué), desde 1960 - e a colecção geológica com minerais provenientes de Portugal, Brasil, África do Sul, Zâmbia, Peru, Argentina e América do Norte.


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