sábado, 21 de novembro de 2009

Obras de Referência dos Museus da Madeira. 500 Anos de História de um Arquipélago


Na Galeria de Pintura de D. Luís I do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, abriu portas hoje ao público uma exposição de três centenas de obras de pintura, escultura, ourivesaria, cerâmica, mobiliário e fotografia, de grande beleza, provenientes dos museus da Ilha da Madeira, cuja visita se recomenda vivamente.

Clicando-se na imagem ao lado, acede-se ao excelente site desta exposição temporária, que encerrará no dia 28 de Fevereiro de 2010.

Abaixo se reproduz a nota para a imprensa, escrita pelo Dr. Francisco Clode Sousa, um dos Comissários Executivos da Exposição:

"Obras de Referência dos Museus da Madeira

Obras de Referência dos Museus da Madeira foi o título de uma exposição que se integrava no projecto MUSEUMAC-Rede de Museus Madeira-Açores-Canárias, programa de iniciativa comunitária INTERREG III B, inserido no eixo 4 da Valorização e Gestão Sustentada dos Recursos Naturais e Culturais. A medida de actuação incidia no tema da Conservação, Valorização e Gestão Sustentável do Património Cultural que decorreu entre 2006 e 2008.

A actividade principal por nós desenvolvida, foi a exposição Obras de Referência dos Museus da Madeira, inaugurada em Abril de 2008, no Museu de Arte Sacra do Funchal, que reunia peças de Museus ou organismos para-museológicos, da Região Autónoma da Madeira como Museu de Arte Sacra do Funchal, Museu Quinta das Cruzes, Casa-Museu Frederico de Freitas, Museu Henrique e Francisco Franco, Museu A Cidade do Açúcar, Núcleo Museológico do IVBAM, Museu de Arte Contemporânea-Fortaleza de São Tiago, Museu Photographia “Vicentes”, Casa Colombo-Museu do Porto Santo e Núcleo Histórico de Santo Amaro-Torre do Capitão.

Essa exposição teve por objectivo criar um diálogo entre obras de arte, apresentando uma evolução temporal ao longo de quase 600 anos de História, com exemplares existentes nas nossas colecções e que fossem sintomáticos das épocas respectivas.

O título, Obras de Referência dos Museu da Madeira, não queria afirmar, que estas são as obras de referência dos nossos Museus, porque necessariamente existem outras, mas sim, que são emblemáticas das nossas colecções e que apresentam os temas fundamentais, dos nossos conteúdos artísticos.
A Direcção Regional dos Assuntos Culturais, através da Direcção de Serviços de Museus, sempre teve relações de franca colaboração com o Instituto dos Museus e da Conservação, desde há longo tempo. Através da Rede Portuguesa de Museus, os Museus da Madeira são parceiros actuantes dos Museus Nacionais, tendo sido já apoiados em vários campos de colaboração institucional, como a formação profissional e técnica, assim como, apoio para a concretização de projectos de exposições ou de reorganização museológica e museográfica.

Foi assim possível levar a cabo esta ideia de deslocar a Lisboa a exposição inicialmente apresentada no Funchal, devidamente ampliada e enquadrada, pelos novos desafios de espaço, que a Galeria de Pintura do Rei D. Luís I, no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, exigia, para além dos naturais reenquadramentos e ponderação dos núcleos temáticos.

Assim, um programa científico que organizou os quase 600 anos de História, sob os seus núcleos fundamentais de desenvolvimento económico, social e cultural, concretizou em termos museológicos uma planificação, que devidamente enquadrada pelos suportes e técnicas da museografia, resultaram numa exposição, que através de obras de arte, se testemunha os contactos estabelecidos com alguns dos mais importantes centros de produção artística portuguesa e europeia.

O Arquipélago da Madeira possui um património artístico muito pouco conhecido a nível nacional, sendo esta exposição uma importante oportunidade de divulgação dessa realidade a um público mais vasto. É aliás, sintomático, que as colecções dos museus regionais reflictam, um percurso de evolução dos principais ciclos da nossa economia e das relações privilegiadas tidas com outras zonas do país, e mesmo afirmem as principais rotas de circulação artística na Europa.

A presença de comerciantes flamengos, a transformação da cidade de Antuérpia, como placa giratória do açúcar madeirense para o norte da Europa, justifica por si só, a existência de um tão importante núcleo de arte flamenga, do primeiro quartel do século XVI, quer na pintura, escultura e ourivesaria, hoje, na sua grande maioria no Museu de Arte Sacra do Funchal, provindas de igrejas e capelas, sobretudo da costa sul da Ilha da Madeira, encomendadas por proprietários de grandes canaviais. A protecção régia, de D. Manuel I, à sua Ilha da Madeira, naturalmente cobrando imposto, é razão para a existência de um conjunto excepcional, que escapou à voragem dos tempos, de ourivesaria manuelina, constituída na sua parte mais simbólica, por ofertas reais à Sé do Funchal.


O ciclo açucareiro permitiu uma abertura ao mundo e à presença de muitos estrangeiros na ilha, que irão moldar desde cedo, um sentido cosmopolita que nos caracterizará. Na Madeira ensaiou-se primeiro Portugal no Atlântico e pôde moldar-se a formação do império português, desde o Brasil, aos outros arquipélagos atlânticos e mesmo no Oriente. Foram os madeirenses e a sua tecnologia açucareira, os responsáveis pelo desenvolvimento da indústria em São Tomé, Antilhas e também no Brasil, para além de terem sido a base de experimentação da estrutura das capitanias, depois aplicadas noutras paragens.

O século de ouro da nossa economia açucareira durou, verdadeiramente pouco e logo na segunda metade do século XVI, começou a sentir-se a crise produtiva e a concorrência do açúcar de outros portos atlânticos. Desde finais do século XVI e por boa parte do século XVII, a crise dinástica e a acelerada queda de Portugal, pelas investidas europeias nos nossos mares, é também um tempo de mudança económica, onde progressivamente se sentirá a substituição do Açúcar pelo Vinho, como referente fundamental para o desenvolvimento da vida insular.

Com madeiras brasileiras construíram-se móveis ao gosto português do século XVII, reaproveitando as maravilhosas tábuas com que se haviam feito caixas para trazer açúcar do Brasil para a Ilha da Madeira, e que alimentavam a nossa indústria de doçaria e frutos cristalizados. Do Museu Quinta das Cruzes, estão presentes, alguns exemplares sintomáticos dos móveis, ditos caixa de açúcar.

Apesar de ser um século de mudanças generalizadas o século XVII começa com o consolidar das defesas militares, agora que nos enquadráramos na grande monarquia ibérica e conquistáramos também novos inimigos. Na Madeira este momento de charneira, entre o esvaziamento do ciclo açucareiro e a emergência do Vinho, está referenciado em exposição por um conjunto muito pouco comum de Ourivesaria Chã, onde um tardo Renascimento e o Maneirismo se confrontaram, no espaço insular, dando origem a uma vitalidade produtiva de grande particularidade no contexto português. Aqui, contrariamente a outras regiões, sobreviveram em quantidade e qualidade, peças, das quais trouxemos uma pequena, mas significativa mostra, da aplicação de motivos e formas que circulavam na Europa, por intermédio de gravuras.

O Arquipélago da Madeira não se encontrava nas rotas marítimas do Oriente português, contrariamente aos Açores, mas foram muitos os madeirenses que participaram na consolidação do império português a Oriente, como o já haviam sido no Norte de África, e trouxeram muitos objectos, que nos chegaram desse encontro cultural, como é o caso do pequeno cofre goês, de tartaruga e prata, do primeiro quartel do século XVI, das colecções da Diocese do Funchal.

No entanto, a Madeira teve ao longo do século XVII, um papel importante no contexto estratégico na navegação atlântica, dos galeões espanhóis de regresso a Sevilha pela Rota de Acapulco, sendo talvez a razão da existência de uma caixa da região de Oaxaca, no México, de meados do século XVII, provinda do fundo antigo do Convento de Santa Clara do Funchal, também nesta mostra.

A produção artística portuguesa ao longo do século XVIII, sobretudo nas artes decorativas, seguirá os modelos do barroco romano, estando presentes em exposição, alguns exemplares notáveis, encomendados aos maiores centros nacionais, como Lisboa, de onde provinham muitas das encomendas regionais.
Os comerciantes europeus, sobretudo ingleses, desde meados do século XVIII na Madeira, atraídos pelo Madeira Wine, em franca expansão, justificam a presença em exposição de algumas obras de enquadramento de época, de mobiliário e artes decorativas inglesas da segunda metade do século XVIII.

Desde meados do século XVII, que se desenhava um influxo produtivo que alterava completamente o sedimento da economia insular, constituindo-se como âncora do segundo, dos nossos ciclos económicos, o da produção e exportação do Vinho Madeira.

Da Europa, em particular de Inglaterra, chegaram também os nossos primeiros turistas, autores de numerosos apontamentos de viagens, por vezes transformados em pinturas, e em álbuns de gravuras, constituindo um poderoso instrumento de apreciação, dos costumes e topografia insulares, mas essenciais para o conhecimento da história das mentalidades, do próprio observador. Foram incluídos de forma apenas demonstrativa, alguns instrumentos musicais e traje madeirense, reveladores da riqueza etnográfica da Madeira e das suas tradições populares.
Em exposição obras de Andrew Picken, como Burriqueiro Boy e Quinta do Monte ou Cabo Girão de John Eckersberg, onde os referentes do Romantismo europeu, se encontram bem consolidados, pelo apelo da paisagem e das gentes.

Uma parte fundamental da construção do imaginário do nosso primeiro turismo, ligado a discutíveis propriedades terapêuticas do clima, farão consolidar o destino Madeira, primeiro entre a sociedade europeia, com a presença na Ilha da Imperatriz da Áustria, Elizabeth, seguida das cortes Alemãs, Inglesas, Russas, Brasileiras, etc.

Em exposição um conjunto de fotografias datáveis entre o terceiro quartel do século XIX e o início do século XX, servem de referência a um imaginário romântico do nosso turismo, mas também de aspectos essenciais do nosso quotidiano insular.

A Fotografia revela também importantes imagens de reportagem sobre acontecimentos marcantes da nossa história, entre o fim do século XIX e o início do século XX.

A participação de madeirenses no início do modernismo na arte portuguesa é dada pelos irmãos Franco. Francisco Franco, mais conhecido como escultor oficial do Estado Novo, tem um percurso insuspeito e muito pouco conhecido, de artista experimental, enquadrável nas referências mais inovadoras do desenho e escultura portuguesa do princípio do século XX. Henrique Franco, retirado mais cedo, é também um ilustre desconhecido, que esta exposição apresenta como participante activo da experimentação modernista.

Temos a certeza de que não esgotámos as possibilidades de apresentação das complexas redes da História, mas a certeza de termos contribuído para um conhecimento mais generalizado das riquezas patrimoniais existentes no arquipélago.

Assim, esta exposição estabelece um percurso de quase 600 anos de vida de uma comunidade complexa, que fez da sua existência uma permanente diálogo entre conhecimento do outro e autoria, proximidade e diferença, abertura ao mundo e certeza do seu vínculo mais profundo, a ideia da autenticidade".

Como última sugestão, aqui ficam os links dos sites do MuseuMac (Rede de Museus da Macaronésia: Madeira, Acores, Canárias), e da CultuRede (Direcção Regional dos Assuntos Culturais, da Ilha da Madeira), cujas visitas igualmente se recomendam:

http://www.museumac.com/index_flash.php

http://www.culturede.com/pt/museus/lista.aspx

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