sábado, 16 de janeiro de 2010

Haiti - Patrimónios

No dia doze de Janeiro, Port-au-Prince, a capital do Haiti, sofreu um violento terramoto de magnitude 7.0 na escala de Richter, que devastou a cidade, causando a tragédia de muitos milhares de feridos e mortos penosamente ainda por descobrir e contabilizar. Pelas imagens, vemos uma cidade destruída, com os principais edifícios e símbolos de poder caídos por terra: o Palácio Presidencial com as suas cúpulas desfeitas, a Catedral de Notre Dame, os edifícios de Ministérios e do Parlamento, um dos Hospitais, hotéis - edifícios notáveis entre os escombros de milhares de outros edifícios irreconhecíveis da cidade e das favelas dos morros que a rodeiam. As notícias referem a possibilidade de cerca de 80% da cidade estar arrasada - a vida está suspensa em terror em Port-au-Prince. Internacionalmente movem-se vontades e esforços para acorrer solidariamente em auxílio às vítimas, de todas as formas possíveis, numa corrida contra o tempo, que se espera, venha a salvar ainda muitas vidas e a contribuir para a reconstrução material e moral da cidade e das suas memórias.

Nestas circunstâncias, com uma catástrofe humanitária em curso, com mais horrores a cada dia revelados, a sobrevivência em risco e a chorar a perda de vidas humanas, de familiares, amigos, vizinhos, a perda dos bens, de uma cidade, de um dia a dia de dignidade e normalidade, de tudo, enfim, que tomamos por garantido nas nossas vidas, quem pensará em salvaguarda de Património? As urgências agora são compreensivelmente outras.


Sem dúvida, bastante tempo se passará até haver condições para se fazer uma avaliação do desastre, em termos patrimoniais e mais tempo se passará até haver recursos financeiros e humanos para se recuperar. Nessa altura, o que se poderá vir a dizer do estado do património cultural e natural de Port-au-Prince? O que é que existia, o que deixou de existir, o que é que sobreviveu ao terramoto e o que é que pode ou não ser recuperado/restaurado? Os edifícios e acervos ainda existem? Qual é a memória que resta destes edifícios e dos seus acervos? O que é possível fazer pela comunidade que estas instituições museológicas servem?

Como em todas as cidades capitais, em Port-au-Prince era o centro político, económico e cultural do Haiti. Nesta cidade concentravam-se Bibliotecas particulares e estatais - a Biblioteca dos Irmãos de St. Louis de Gonzague (com colecções de jornais dos séculos XIX e XX, e muitas obras raras da época colonial e republicana), a Biblioteca Nacional, com dezenas de milhares de volumes, a Biblioteca do colégio paroquial Le Pétit Séminaire; nos Arquivos Nacionais, entre outras preciosidades, havia a Colecção Rochambeau (documentos sobre a expedição napoleónica ao Haiti), além das bibliotecas do Institut Français e do American Institute. Igualmente era na capital do Haiti que se encontravam as universidades - a Université d'État d'Haïti (com uma importante colecção agrícola), a Université Quisqueya e a Université des Caraïbes, além de diversas academias estrangeiras.

Em Port-au-Prince situavam-se igualmente o Musée du Panthéon National (fundado em 1938), o Musée du Peuple Haïtien (com colecções antropológicas e etnográficas) e o Musée de L'Art Haïtien (inaugurado em 1972 no Collège St. Pierre) - infelizmente, nenhum destes museus ou das suas colecções se encontra representado online e com o nível da destruição que houve, não se sabe se os suportes físicos e registos fotográficos/digitais das colecções subsistem ainda. No entanto, pelo menos, no que se refere à arte, podemos obter uma panorâmica parcial da arte haitiana na consulta online de outras colecções de arte haitiana no Figge Art Museum (Iowa, EUA), na Bryant University (EUA) e em Galerias de Arte à volta do mundo, de acordo com a extensa lista indicada pela Haitian Art Society.


A cultura haitiana também se representa pelo legado das suas crenças religiosas espíritas e dos seus feiticeiros. Em Janeiro de 2008, o Musée d'Ethnographie de Genève (Suíça) apresentou uma exposição de 300 objectos de vudu haitianos - "Voodoo, un moyen de vie"-, pertencente a Marianne Lehmann, de nacionalidade suíça, residente em Port-au-Prince.

Existe um Museu dedicado à Herança Cultural do Haiti, em Miami, Florida, nos Estados Unidos da América, com presença online, o Haitian Heritage Museum, cuja página se convida a visitar.


De lembrar ainda que o Haiti é, em termos de flora, a segunda ilha mais rica e diversificada das Caraíbas, o que proporcionou a criação da Haitian Botanical Foundation em 1996, para o seu estudo e salvaguarda, pela Botanic Gardens Conservation International que trabalha no Haiti desde 1993, no projecto do Jardim Botânico de Port-au-Prince.

O Instituto para a Preservação do Património Nacional do Haiti (Institut de Sauvegard du Patrimoine National - ISPAN), instituído em 1979, disponibiliza online na página da Embaixada do Haiti em Washington D.C., EUA, os 8 números do seu Boletim, de Junho de 2009 a Janeiro de 2010, extremamente valiosos para se conhecer melhor o Património do Haiti, havendo uma ênfase nos monumentos e sítios históricos (em especial, as fortalezas). O número 6, no entanto, é essencialmente dedicado ao Palácio Nacional Presidencial, desenhado pelo arquitecto Georges Baussan, hoje em ruínas, pelo que este Boletim em particular, ganha uma particular relevância e interesse.
Por último, embora não menos importante, refira-se que o Haiti consta na lista da UNESCO do Património Mundial, desde 1982, com o Parque Nacional Histórico, que inclui a Cidadela, o Palácio de Sans Souci e os edifícios em Ramiers.

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