segunda-feira, 26 de agosto de 2013

As marés negras da nossa alma

Mais uma vez somos confrontados com uma catástrofe ecológica de dimensões ainda incalculáveis: uma plataforma de petróleo da BP no Golfo do México sofreu uma violenta explosão no dia 20 de Abril, com a perda de 11 vidas humanas, afundando-se dois dias depois, ao largo da costa do Estado da Louisiana (EUA). Segundo as agências noticiosas, desde então detectaram-se pelo menos 3 fugas de petróleo, tendo-se vindo a derramar no mar cerca de 210 000 barris de petróleo por dia, causando uma vasta mancha negra a destruir os ecossistemas marinhos e do litoral dos EUA (Louisiana, Florida, Alabama e Mississipi). O mau tempo que se tem verificado nesta zona tem aumentado a velocidade e extensão desta mancha negra, observando-se mesmo do espaço (em cima pode ver-se uma imagem de satélite da Agência Europeia Espacial).

Numa maré negra, habitualmente causada pelos grandes petroleiros que continuam a cruzar os oceanos, quer por acidente, quer por limpeza criminosa dos seus tanques (por ano, continuam a ser derramados cerca de 600 000 litros de petróleo bruto nos mares sem que ninguém assuma responsabilidades), uma das primeiras calamidades é o facto de o manto espesso de crude impedir a passagem dos raios solares de modo a realizar-se a fotossíntese, destruindo-se a flora marinha (e.g., algas), possibilitando a proliferação de organismos anaeróbicos (e.g., bactérias) aniquilando, por consequência, a fauna marinha. A par desta calamidade, qualquer ser vivo, peixe, mamífero ou ave atingidos por este manto, são rapidamente envenenados, imobilizados e sufocados por este. Por fim, os efeitos destas marés negras persistem no tempo, mesmo depois das limpezas aparentes, pela demora com que os ecossistemas se recuperam e pelas substâncias carcinogénicas e tóxicas que permanecem nas águas, absorvidas pela fauna e flora, causando mutações genéticas, doenças e toxinas que, eventualmente, vão parar à nossa mesa.

Aparentemente, o ser humano é o único ser vivo que continua a encontrar mais virtudes do que defeitos no petróleo, apesar de ter ao alcance da mão energias limpas renováveis (solar, eólica, hidráulica, marés), mas isso não é de admirar: é igualmente o único ser vivo que considera normal poluir as águas, rios e mares de que depende a sua vida, é o único a achar que pode continuar a destruir tudo e mais alguma coisa, na terra, no ar e no mar, a seu bel-prazer, simplesmente porque tem o poder de o fazer. E, portanto, o ser humano, em vez de resolver o problema pela raiz, prefere continuar a reunir em conferências internacionais peritos em conter e lavar derrames de petróleo (vejam a International Oil Spill Conference, por exemplo), perpetuando os lucros das grandes companhias petrolíferas e dos seus investidores, à custa de um ataque constante à nossa biodiversidade. Mas não faz mal, o que importa é termos especialistas para nos ensinarem a lavar as marés negras da nossa alma.

O grande desenhador argentino Joaquín Lavado (Quino) tem abordado estes e outros temas, criando verdadeiros cartazes que gritam bem alto contra as injustiças e misérias deste mundo, políticas, económicas, sociais e ecológicas. O seu "Moderno Testamento - Génesis do Fim"(1), é admirável e profético, caso não se trave a monstruosa e louca ganância que prolifera neste mundo. Aqui fica esta espantosa reflexão:


Quem nos dera estarmos enganados...

Imagem acima:

(1). Quino, "Moderno Testamento - Génesis do Fim" in Não fui eu!, Bertrand Editora, Venda Nova, 1995, p.93.

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